Verbete organizado
por:
Constância Lima Duarte e
Diva Cunha

 



Myriam Coeli


Textos:

 

Variações para o Rondó

Para minha avó Maria Carolina

De compostura conventual,

a avó que foi sinhá

e as avós da avó

sentam-se em longas mesas

cobertas de linho branco de delicados bordados.

Tão meninas e tão barrocas,

metidas em tantas roupas

sobrando nos sofás.

De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós

como a lenda na lembrança,

deixando-se servir por negras de África,

em porcelanas de Inglaterra e França.

Porque de sins serviam a seus senhores.

Tão meninas e tão barrocas,

de estremeços maternais

viviam essas sinhás.

Para os folguedos não esquecidos

da quadra infantil,

nas grandes salas, valsas de piano ressoavam,

o riso, o choro de crianças

e os embalos das mucamas.

Essas meninas barrocas

lembravam suas bonecas

esquecidas nos sofás.

Tinham gestos breves das polcas e dos minuetos

deslizantes em salões de pinho de Riga - pés gracis;

e os falares intrigantes, embora de amor constante.

Nas cabeças inquietas, sonho que desatina.

O sorriso se escondia por trás de leques da China.

Tão meninas e tão barrocas,

de graça muita. alegria pouca,

suspiravam essas sinhás.

Tão românticas passaram em varandas patriarcais

de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor de lis

e em lembranças se arrumaram

assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,

ornatos de colares de ouro, e pedrarias,

tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,

tão sós e tão serenas em suas estampas retocadas.

tão meninas e tão barrocas,

enfatuadas com tantas roupas,

rendando nos sofás,

que hoje para esta avó de avoengas sinhás

o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,

neste século XX desgracioso,

sem dengues, sem leques,

sem doçuras de sinhás.

Ah! quem nos dera assim meninas tão barrocas,

vestidas naquelas mesmas roupas

arrumadas nos sofás!

 

Marinha

O mar, sacudido pela viração, desata seu canto. As rochas parecem mover-se palpitantes pássaros de pedras na solidão. Agita-lhes os braços esverdeados das ondas inquietas. Braços de ondas que se enroscam nas pedras e oferecem flores de espumas. O mar se movimenta em seu volume verde vivo. Canta e vive. Sacode-se em ondas e dança na tarde, numa ilimitada alegria de luz. Sacode-se, dança e vive. Palpitante de vida, trêmulo de músicas, o mar desliza na tarde numa tocante comunicação de beleza. Há pássaros, gritos de pássaros, trinados de pássaros em seu canto. Há maior que o canto, a solidão imensa desse mar que se arrasta numa inconseqüente alegria, numa inútil palpitação e numa incompreendida harmonia. O mar é o mistério. É a própria solidão.

As pedras caminham. Há uma procissão de rochas no silêncio da tarde. Elas caminham pelo mar, sem destino, caminham dia e noite, incansáveis, insofridas. Perdem-se sob uma nuvem de espumas, reaparecem escuras e desalentadas e caminham em sua resignação.

O mar apenas se importa com o canto. Porém, há outros motivos que se harmonizam com sua indecifrável beleza. Velas douradas que se incendeiam na luz do sol que envelhece. Peixes de dorso brilhante fazem cambalhotas, traçam elipses com seus corpos esguios e se aprofundam nas águas inconstantes. Búzios coloridos guardam vozes estranhas e toda uma vegetação palpita e se desenvolve no segredo dessas águas milenares...

(In A República, 20/ 10/ 1957)