Verbete organizado
por:

Zahidé L. Muzart

 



LUÍSA LEONARDO


Textos:


No Lago Asfaltite

Tive um sonho extraordinário.

Era no lago Asfaltite.

Eu boiava sobre as águas salitrosas e pesadas, sentindo adormentar-se a minha antiga dor, com o balouço cadenciado das vaga cor de aço.

Por sobre mim desenrolava-se o céu sereno e fundo, pontuado de lívidas estrelas, entre as quais fulgia a lua pensativa, como um estreito alfanje reluzente.

Estendida ia eu indo águas afora, a relembrar os meus sonhos falecidos, e boiava sobre o mar triste e pestífero, sem rumo, sem esperanças, sem consolo.

De repente, junto a mim estendeu-se uma figura, e mais outra, e mais outra... e mais outra, e por toda a parte vi boiando centenares de fantasmas, como corpos embalsamados de entes estremecidos chorados com dor profunda, perdidos com intensa mágoa.

Um silêncio aterrador amortalhava a atmosfera, e os fantasmas, a boiarem, entoaram um canto triste. Salmos de defuntos, estrofes de sonâmbulos.

E eu de olhos fechados ia indo águas afora, embalada por aquele estranho coro que me falava de agonias mortuárias, de angústias agudíssimas.

Uma opressão singular esmagava-me o peito, e eu, abrindo os olhos, vi com espanto e horror uma nuvem cor de chumbo, muito densa, descendo sobre o mar e envolvendo toda a natureza nas suas dobras sepulcrais.

Um vento frio e cortante, como lâminas de facas, era arrojado sobre as águas pelo ventre negro e bojudo da feia nuvem pavorosa.

Os fantasmas, soluçando hinos de morte, cortaram o ar gelado e sumiram-se na escuridão.

Quis fugir, e cheia de medo ia afundar-me nas vagas solitárias, quando dos abismos do triste e horrendo mar vi subindo uma camada de lodo espesso e nauseante, cheio de visgo, cheio de betume.

Subia sorrateiro, avassalando todo o mar estendendo-se lentamente num marulho sinistro e tétrico, e mais subia o lodo e mais descia a nuvem, a confundirem-se num abraço monstruoso, titânico, num consórcio inconcebível.

Senti passar então todos os frêmitos dos cataclismos em convulsões histéricas

Olhei em roda: monstros pavorosos surgiam do negro lodo, e atiravam-se sobre mim.

Não hesitei. Afundei-me pelo mar adentro, e rasguei o peito nas arestas agudas dos rochedos Ai! Que dor atroz! O sangue escorria-me quente das feridas, tingindo as camadas superiores de uma crua cor vermelha.

Os monstros mais excitados pelo acre cheiro da carne esfacelada, disputavam-me aos pedaços, dilacerando-me as entranhas, mordendo com os dentes pontiagudos o meu cérebro enlouquecido; e quando o mais feroz, a uivar sinistramente, ia trincar-me o triste coração, abriu se uma nesga no céu, radiante luminosa, atapetada de orações e divisei ao fundo a simples e santa cruz de Cristo.

Acordei horrorizada, com o sol a beijar-me as brancas franjas de colcha do meu leito, e compreendi que o meu sonho era verdadeiro.

Sim esta vida é amarga e pesada como o plúmbeo lago Asfaltite; cheio de ilusões, brancos fantasmas, que transformam em tristes realidades pavorosas, como os monstros que me queriam devorar; de falsas amizades que nos rasgam as crenças, como pontas de rochedos aguçados; de calúnias que nos congelam a alma, como o vento que se desprendia do bojo da sinistra e negra nuvem, símbolo da maldade humana, que nos oprime a vida e nos precipita para a onda de lodo, a triste ingratidão dos homens. Só a fé, no meio desta catástrofe do desolado sentimento, nos pode salvar: a fé ou a resignação, simbolizada na sacrossanta e bendita cruz do Salvador.

 

Coração do mar

Ao Dr. Göran Björkman (poeta sueco)

Deserta a praia está! Do mar o vagalhão

estoura além, na fraga, e ruge enfurecido,

de espumas salpicando um velho torreão,

musguento, abandonado, em névoas envolvido.

Que dor te fere, ó mar?!...Acaso o coração

que pulsa dentro em ti, em iras sacudido,

retesa-se fremente, ao ver o atroz grilhão

que ao leito te acorrenta amargo e desabrido?

Ai! não!... choras, salino eterno, as agonias

da terra lacerada, e quando te arrepias

o nobre dorso erguendo, em convulsivo anseio,

É que o desejo tens da triste humanidade

as dores mergulhar na tua imensidade,

na treva glacial do teu fecundo seio.